Depois do acidente que me deixou tetraparético, fiquei seis meses internado. À época com 16 anos, graças a Deus, não passei pela fase de depressão que muitos passam quando se descobrem em situações semelhantes. Mas acredito que boa parte dessa não depressão se deve a um episódio emblemático onde pude ter consciência da gravidade de meu caso.

Desde que fui atendido em Almenara, os médicos insistiam em me "poupar" de minha real situação. Lembro-me bem do doutor dizendo com uma cara bem preocupada: Você tem um quadro que inspira cuidados, mas não é nada grave. Mesmo assim, terá que ser transferido para Belo Horizonte ainda amanhã. Não quis constrangê-lo expondo sua flagrante contradição para não piorar o clima que já beirava o de um velório. Fui para Belo Horizonte e lá continuaram me "poupando".

Uma semana depois do acidente, eu ficava o tempo inteiro com os olhos fechados para não ter que responder ao milésimo desconhecido sobre o que havia acontecido comigo. Não que eu tivesse algum trauma, mas porque eu não tinha mais histórias para inventar. Já que uma de minhas distrações favoritas era contar as mais absurdas versões do meu caso, desde contar que tinha levado um tiro roubando galinha a dizer que havia tropeçado e batido com o pescoço numa pedra.

Para passar o tempo, eu me distraia fazendo contas absurdas como quantos copos seriam necessários para encher o quarto ou quantos Km de vasos sanguíneos temos no corpo. Eis que entram no quarto duas enfermeiras "passando o plantão" e, por estar de olhos fechados, acharam que eu estava dormindo. Como a efermeira que estava entrando voltava de suas férias, ainda não me conhecia. Foi aí que ouvi o seguinte diálogo:

- E esse aqui, o que tem?

- Ah! Ele não dura mais nem uma semana!

- Que pena! Tão bonitinho! O que ele tem?

- Ele teve lesão medular e está tetraplégico. Mas também está com trombose na perna direita, embolia pulmonar, pneumonia dupla, infecção urinária e uma febre que não passa.

Ainda lembro do susto que levaram quando completei: E o pulso, ainda pulsa...

Para minha sorte, contrariei o "prognóstico". Um mês depois recuperei alguns movimentos dos braços e, em dois meses, já conseguia sentar na cadeira de rodas. Também posso dizer que foi sorte ter ouvido aquela conversa porque fez com que eu encarasse cada dia a mais como uma dádiva e, uma vez que já estava "no lucro", eu tinha mais era que apreveitar da melhor forma possível ao invés de ficar lamentando estar naquela situação. E olha que eu aproveitei bastante! Em outros posts contarei algumas das histórias da época.

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